Na terça-feira, a Prefeitura de São Paulo publicou no Diário Oficial a ampliação da coleta seletiva porta a porta em 18 bairros da zona leste. A lista inclui Itaquera, Cidade Tiradentes, Guaianases e Ermelino Matarazzo — regiões onde a coleta convencional chega, mas o caminhão laranja passa uma vez por mês, quando passa.

A promessa é simples de ler no papel: coleta semanal de papel, plástico, metal e vidro, com horário fixo e ecoponto de apoio em cada subprefeitura. O problema é que moradores dessas áreas já viveram o ciclo completo — anúncio, adesivos colados nos postes, três meses de funcionamento irregular e silêncio.

O que muda agora

Pela primeira vez, o cronograma veio com data de início por bairro e contrato de três anos com a cooperativa que vai operar a rota. Isso importa porque catadores organizados vão receber o material já separado, em vez de disputar o lixo comum na rua.

Segundo a Secretaria de Limpeza Urbana, os caminhões começam a rodar em Itaquera e Cidade Tiradentes a partir de 23 de junho. Os demais bairros entram em ondas quinzenais até agosto. Cada morador deve receber um kit com duas lixeiras — uma pra orgânico, outra pra reciclável — e um calendário impresso.

A prefeitura também prometeu 36 ecopontos fixos de apoio, com horário estendido aos sábados. A ideia é que quem perdeu o dia da coleta porta a porta possa levar o material separado até o fim de semana, sem misturar tudo de novo no lixo comum. Em bairros anteriores, a falta de ponto de descarte próximo foi um dos motivos mais citados para abandono da separação depois dos primeiros meses.

«Se não tiver educação ambiental junto, vira mais um caminhão parado na esquina», diz Maria Aparecida, presidente da cooperativa Coopermiti, que vai operar cinco dos 18 bairros.

Ela tem razão em desconfiar. Em 2024, um piloto semelhante em Sapopemba registrou adesão de 34% nas primeiras oito semanas. O lixo reciclável chegava misturado com resto de comida em quase metade das coletas. A prefeitura culpou falta de comunicação; moradores culparam horário de coleta que mudava sem aviso.

Desta vez, a Secretaria de Limpeza Urbana contratou seis educadores ambientais para circular de porta em porta nas duas primeiras semanas de cada bairro novo. O material de campanha saiu em português simples, com exemplos visuais do que vai em cada lixeira — garrafa PET limpa no azul, resto de comida no marrom, embalagem suja de molho fora do reciclável. É um detalhe pequeno, mas que faz diferença quando a rotina aperta e ninguém quer ficar lendo regulamento na hora de descartar o lixo.

Como se preparar

Se você mora em um dos bairros da lista, três coisas valem agora:

  • Confira o calendário no site da prefeitura ou no ecoponto mais próximo — não confie só no grupo do WhatsApp do prédio.
  • Lave embalagens de plástico e metal antes de descartar. Material sujo é rejeitado na cooperativa e volta pro aterro.
  • Se o caminhão não passar no dia marcado, registre no 156 com foto. Reclamação individual funciona melhor que post genérico.

A ampliação coloca São Paulo em 42% de cobertura de coleta seletiva porta a porta — ainda longe dos 100% prometidos no Plano Municipal de Resíduos Sólidos, mas um passo concreto em regiões que ficaram de fora por anos. Para as cooperativas envolvidas, o contrato de três anos significa poder pagar salário fixo a dezenas de catadores que hoje dependem da sorte do dia na rua.

Na próxima semana a gente acompanha a primeira rota em Itaquera e volta com relato de quem está na ponta: morador, catador e fiscal. Porque estatística de gabinete e lixeira na calçada são coisas bem diferentes. Se você mora em um dos 18 bairros e quiser contar como está a separação aí, escreva pra gente — relato de quem vive o serviço pesa mais do que release de secretaria.